Um janeiro que parece um ano inteiro
O novo ano e o regresso à rotina podem ser experienciados pelas crianças, jovens e famílias de forma muito diferente. Se para algumas pessoas este recomeço pode trazer entusiamos e motivação, para outras pode traduzir-se em mais cansaço, irritabilidade e agitação, mais do que o esperado... Mas todas as experiências são válidas. Acima de tudo: não criticar nem rejeitar, orientar e apoiar; menos pressão e mais intenção! Validar uma "montanha russa de emoções" vale mais do que "corrigir".
Com tempo, previsibilidade e acolhimento, a adaptação acontece!
Depois da magia do Natal e da quebra total de horários nas férias, o "choque" da realidade pode ser real tanto para os pais como para os filhos:
- O "blues" de janeiro e efeito pós-festa: ao contrário do regresso às aulas em setembro, que vem cheio de novidades e de material escolar novo, janeiro traz o fim das luzes e dos presentes. Há a quebra brusca de expansividade, pois as crianças e jovens passam de um ambiente de hiperestimulação (festas, família, doces) para a rotina estruturada e, por vezes, monótona da escola e do sistema familiar. Há também a fadiga emocional, resultante do excesso de socialização e antecipação do Natal, que deixam um cansaço residual que só se nota quando se para.
- Desregulação do ritmo circadiano: durante as férias, é comum as crianças e os jovens deitarem-se e acordarem mais tarde, focarem a sua atenção em estímulos prazerosos, escolhidos por eles. O corpo e mente estão ainda em modo pausa e janeiro tira a primazia da escolha de atividades que dão prazer.
- Pressão académica imediata: janeiro marca frequentemente o final do semestre académico ou o início de um novo período, por isso para os jovens há o peso das notas e a necessidade de recuperar a matéria esquecida durantes as férias, o que gera ansiedade. Retomar o hábito de estudo exige um esforço cognitivo intenso, após duas semanas de relaxamento total. Por outro lado, os mais novos podem manifestar ansiedade de separação, sintomas físicos de rejeição à escola, desconsiderando todas as relações e confiança já estabelecidas com os seu pares e adultos de segurança no meio escolar.
A adaptação ao janeiro difícil tende a ser mais saudável quando há previsibilidade, tempo e expectativas ajustadas: mensagens focadas em tentar juntos, ajustes enquanto família e apoio a cada um, em vez de corrigir ou tentar alterar de imediato; esta poderá ser a chave para superar um "longo janeiro que parece um ano inteiro". É importante lembrar que o cérebro das crianças ainda está a desenvolver as funções executivas (como o planeamento e a autodisciplina), por isso elas precisam, mais do que os adultos, de mais ajuda externa para se organizarem. Entender que o cérebro da criança e do jovem é como visualizar um "prédio em construção" ajuda-nos a substituir a frustração pela empatia, pois os nossos filhos, emocionalmente mais regulados, sentem-se mais seguros, confiantes e disponíveis para aprender.
Como se pode transformar um janeiro que se organiza em mais intenção e menos agitação?
- Retomar calendários visuais com cores, pois tanto crianças como jovens necessitam de visualizar o tempo de cada atividade, para sentirem que não lhes estão a "roubar" o que é prazeroso e entusiasmante;
- Voltar a mostrar horários e explicar tempos de compromisso, desde o início do ano, com consistência e previsibilidade dá segurança;
- Colocar uma lista de tarefas e itens necessários para os dias da semana;
- Criar "pausas de transição" entre jogo/brincadeira e estudo (pedir uma tarefa "intermédia" cria menos resistência para o início do estudo);
- Usar temporizadores visuais (ampulhetas ou relógios digitais) para que crianças e jovens vejam o tempo a passar e se reajustem a cada tarefa;
- Garantir fins-de-semana mais calmos, sem grandes planos, para recarregar baterias da intensidade do regresso às aulas;
- Ouvir queixas sem julgar ("Eu percebo que custe, também estou a sentir o mesmo!");
- Recordar o reencontro com os amigos e as atividades extracurriculares que gostam;
- Ajudar na iniciação de cada tarefa sem julgar (não é preguiça é falta de capacidade de se automotivar para tal);
- Perceber que a dificuldade concentração, ansiedade de separação, resistência às tarefas e emoções intensas surgem pela sobrecarga da dissonância cognitiva entre querer muito um relaxamento total das férias e ter e a noção de querer cumprir as expectativas dos pais de voltar a "entrar nos eixos".
As dificuldades dos nossos filhos não são "birra" ou falta de esforço, mas sim uma questão de maturação biológica, por isso estes requerem mais tempo para voltarem à rotina e aos hábitos de tempo de aulas e, ter isso em mente, ajuda a manter a calma e evitar a desregulação das crianças, jovens e famílias.
Se sentir que o seu janeiro "vale por um ano inteiro" e as dificuldades se mantêm e começam a interferir no bem-estar da criança, jovem ou família, deverá procurar apoio especializado que pode ajudar a atravessar esta transição com mais segurança e confiança. A clínica NIITE tem a resposta para transformar qualquer inquietação em movimento, com propósito e ajustamento para as crianças, jovens, adultos e famílias.